A filha adolescente

A relação mãe-filha inicia-se antes e, geralmente, é mais continuada do que a de pai-filho. É também mais fácil, fluída e espontânea. Mãe e filha escutam, falam e divertem-se, como se falar “de mulher para mulher” acrescentasse uma sintonia especial para a sua relação. Este quadro tem algumas excepções, especialmente uma: a chegada à adolescência. Uma profunda crise tende fatalmente a abrir-se entre elas nesta etapa.

A filha, durante a sua transformação adolescente, terá uma forte oposição a tudo quanto a mãe pense, diga ou faça. As mães não deveriam sofrer tanto com isto, pois é só uma etapa transitória que desaparece com o tempo. Mais que rejeição da pessoa da mãe – que foi até esse momento um modelo – trata-se mais da necessidade de se afirmar a si própria, embora procure conseguí-lo precisamente através das críticas, incompreensão ou rejeição da mãe.

Que acontece quando uma adolescente que não se entende com a mãe se sente compreendida pelo pai? Isso muda-lhe a vida. A admiração e sintonia com o pai confirmam-na nos seus próprios valores, e podem mesmo condicionar nela uma maior exigência em relação aos rapazes com quem sai. Em certas ocasiões, a admiração pelo pai é uma nova dificuldade quando se trata de encontrar um bom marido, pois exigirá ao aspirante que seja pelo menos como o pai. Por outro lado, a sintonia entre pai e filha servir-lhe-á para aprender e exigir que a respeitem e tratem como o pai.

Nesta etapa é muito proveitoso que se afirme mais a relação entre a filha e o pai. A adolescente, durante esta etapa, costuma ter mais admiração pelo pai do que pela mãe. Se nasce uma proximidade especial, não isenta de cumplicidade, entre o pai e a filha, então a sua educação e maturidade serão muito mais fáceis.

As mães fariam bem em não se sentirem fracassadas e menos ainda em deixar-se invadir por ciúmes em relação aos respectivos maridos, se se dão destas boas relações. As filhas valorizam nos pais a rapidez com que percebem o que lhes está acontecendo, a segurança que lhes proporcionam e, logicamente, a compreensão que dizem não ter encontrado nas mães. Em suma, o pai transforma-se na pessoa capaz de as afirmar no seu valor próprio, ganhara confiança e suscitar talvez uma admiração que até agora não tinham sentido por ele.

Se as mães sabem esperar dois ou três anos, a relação com as filhas voltará a ser o que era. Se deixarem correr mais anos e as filhas se casam, a admiração da filha pela mãe voltará a crescer. A fase em que essa admiração é mais poderosa acontece quando a filha dá à luz uma criança. A partir da maternidade da filha, ela entende melhor a maternidade da mãe. A inexperiência natural da filha costuma suscitar nela uma confiança radical na sua mãe, a quem consulta sobre quase tudo o que a preocupa em relação ao bebé e à maternidade.

O que conta, para os filhos, é o tempo vivido, o tempo partilhado. Essa é a melhor herança que os pais podem deixar. Essa é a melhor forma de educar em valores, a melhor forma de afirmar a personalidade singular de cada um deles, a melhor forma de reforçar o que diferente tem a masculinidade e a feminilidade.

Isto evidencia que o pai é fundamental na família. Tanto nas relações pai-filho como nas relações filha adolescente-pai. É bom para a formação dos filhos e das filhas que haja “química” entre eles e seus pais; que partilhem muitos momentos importantes que configuram a terra firme sobre a qual pode assentar a identidade pessoal.

(Aquilino Polaino-Lorente, Catedrático de Psicopatologia, Universidade San Pablo-CEU, Madrid. Conferência em Setúbal)