A paz conjugal

Em contrapartida, a mulher, na procura de intimidade, de afeição, irrita muitas vezes o marido e dá-lhe uma impressão de mesquinhez e de complicação.

Para manter a intimidade, ela fala de si, fala do que fez durante o dia, e gostaria de que o seu marido fizesse o mesmo. Mas o marido não vê nisso mais do que ninharias, quando o que lhe interessa não é tanto dizer alguma coisa como renovar um contacto. As perguntas da mulher dirigem-se a orientar a conversa para temas de intimidade. “Amas-me, querido?”, diz ela. E ele encolhe os ombros. Pois claro, já se sabe que a ama. Então, por que se teria casado com ela? Que necessidade tem de o repetir dez vezes ao dia?… Ela, a mulher, encontra nisso um encanto sempre novo.

Assim se cava uma separação interior: o marido acha a mulher irritante, a mulher acha o marido brutal. E isto para falar de bons lares, onde reina um acordo aparente. O perigo, no entanto, vê-se. A mulher de outro reveste-se de uma atracção que a esposa já não apresenta, porque daquela está tudo por conseguir, e o homem volta a ser amável. Um terceiro que se apresenta reveste-se de uma atracção que o marido já não tem, posto que, tendo tudo a conquistar, usa dos seus encantos… E mesmo no caso dos lares cristãos, em que o adultério é raro, quantos lares se não extinguem por mútua incompreensão!

Por isso é tão importante que cada um dos esposos chegue a compreender que deve ao outro aquilo de que o outro tem necessidade e que, como antes dizíamos, o homem se não esqueça nunca de que se casou com uma mulher e a mulher de que se casou com um homem.

A boa ordem da vida conjugal exige que, para conseguir da mulher a satisfação da sua paixão, o marido tenha com ela as provas de afecto que a levam a entregar-se. A mulher deve ser disposta para o amor com carícias que a façam submergir no estado de enternecimento feliz que provoca o abandono. E também isto é simbólico. O marido e a mulher, responsáveis pela felicidade um do outro, estão igualmente obrigados a procurar um para o outro o que a felicidade de cada um exige. Se a mulher tem mais necessidades afectivas, é um dever grave para o marido satisfazê-las; se o marido tem mais necessidades carnais, é para a mulher um dever grave contentá-lo.

(Jacques Leclercq)