Amar como homem, amar como mulher

O amor afectivo e carnal é um dos pontos acerca dos quais se põe mais frequentemente de relevo a oposição entre o homem e a mulher.

Numa só palavra, o homem é mais carnal, a mulher mais afectiva. Muitos mal entendidos e até rupturas conjugais, secretas ou confessadas, são consequência desta diferença.

O homem é mais carnal. O homem plenamente viril é normalmente pouco sentimental. Na vida ordinária, não tem necessidade de testemunhos de afecto e não experimenta prazer em proporcioná-los. Apenas se mostra afectuoso quando pretende obter alguma coisa; a sua afeição é interesseira. E, de modo especial, nas suas relações com a mulher, mostra afecto com o fim de conseguir obter dela consentimento para satisfazer as suas paixões. Por isso é que muitos noivos, cheios de atenções antes e durante o noivado, se tornam, depois do casamento, frios e distraídos. Antes do casamento, têm ainda de conquistar a sua noiva; uma vez casados, encontram-se com direito à vida conjugal; já se não julgam na obrigação de a merecer; e uma das frases mais desiludidas que muitas vezes se ouvem dos lábios de mulheres é: “Ele era tão atencioso quando éramos noivos!”

É que, tendo obtido o que desejava, o homem já não julga necessário esforçar-se. Não carecendo para si mesmo de testemunhos de afecto, não percebe por que razão a sua mulher há-de carecer deles. Tendo, porém, necessidades carnais, e sabendo que o matrimónio implica o direito de as satisfazer, exige da sua mulher que as satisfaça, sem pensar que ela possa ter outras necessidades.

Entretanto, surge um momento em que o homem tem necessidade de ternura. É, geralmente, em certas ocasiões de depressão, quando se encontra fatigado ou desmoralizado. Então expande-se, procura o afecto; e, nesses momentos, a sua mulher é inteiramente feliz, por o ver regressar a uma intimidade e a um abandono que julgava perdidos. No dia seguinte, quando o marido, já reposto, retomou a posse de si mesmo e a mulher se dirige alegremente para ele, cheia de palavras doces, julgando que a sua vida conjugal voltou a ser o que era nos primeiros tempos, fica totalmente desorientada e desiludida ao ver que é friamente recebida e maltratada e que, inclusive, o homem parece humilhado ao recordar-lhe o que a ela se lhe apresenta como o verdadeiro amor e que, para ele, não é mais do que uma fraqueza, de que é melhor não falar.

Quererá isto dizer que o homem é incapaz de amar? De modo algum; mas o seu amor manifesta-se de outra maneira. Maridos há que trabalham como escravos para proporcionar às suas mulheres conforto e luxo, para que tenham uma casa agradável, jóias, peles e que, no entanto, havendo passado todo o dia fora de casa, chegam à noite fatigados, nervosos, irascíveis, e não têm nunca uma palavra amável. Quantas mulheres há que não dizem: “Em vez de todo este luxo, preferiria de vez em quando uma prova de carinho!”

A mulher inteiramente mulher tem mais necessidade de afeição do que de satisfações propriamente carnais. Ou talvez nela o prazer carnal se lhe apresente de maneira diferente, e as carícias, que para o homem representam apenas um prelúdio, sejam para ela ocasião de um prazer mais intenso. Em todo o caso, sem entrar em pormenores fisiológicos que são objecto de estudos especializados, a mulher tem necessidade de ternura e concede uma extraordinária importância a tudo o que a pode exprimir, seja uma palavra, seja um abraço. Contrariamente ao que sucede com o homem, um grande número de mulheres dispensa sem dificuldade a união carnal completa, contanto que as suas necessidades afectivas sejam satisfeitas. Sem generalizar o assunto, pode no entanto dizer-se que, de modo habitual, a afeição está em primeiro lugar para a mulher, e a satisfação carnal para o homem.

Daí a impressão, em muitas mulheres, de que o seu marido é um bruto quando reivindica os seus direitos conjugais, sem procurar conseguir, com testemunhos de afecto, que ela se disponha a isso por amor. Para a mulher que é verdadeiramente mulher, entregar o seu corpo a um homem é a maior prova de amor, a mais profunda renúncia a si mesma, o abandono de todas as suas reservas, do seu pudor; entrega-se de certo modo em sacrifício e dá-se para proporcionar ao homem uma suprema prova de amor. Depois disto, espera reconhecimento, atenções; tem a impressão de que, daí por diante, entre eles, a intimidade se deve considerar adquirida e persistir. Mas o homem, uma vez conseguido o que desejava, levanta-se distraído e, acalmada a sua carne, dirige-se para os seus interesses de homem, com os quais a mulher nada tem que ver. Esta fica tão profundamente melindrada e desiludida quão profundo era o dom que fazia de si mesma.

(Jacques Leclercq)