Amor afectivo e amor carnal

O amor é a rainha das paixões e a mais rica, porque abrange a totalidade do ser humano, desde os mais puros cumes da vida espiritual até às tendências mais carnais.

A alma e o corpo estão nele igualmente comprometidos. O amor nobre, o amor plenamente humano, é um amor de todo o homem.

Se bem que deva ser acima de tudo espiritual, feito do contacto de duas almas, baseado na estima e no desejo mútuo de uma vida nobre e feliz, os aspectos afectivo e carnal têm, não obstante, nele um grande lugar, um lugar indispensável, como, aliás, em toda a actividade humana.

Entendemos aqui por amor afectivo o que se manifesta através de sentimentos e se nutre ou se exprime com testemunhos de afeição. Estes testemunhos traduzem-se por sinais sensíveis, materiais; e tudo o que é material, neste ponto pode, em sentido lato, ser qualificado de carnal. Porém, quando se fala do amor carnal é em geral para o opor ao amor afectivo e para designar de modo exclusivo o conjunto de atitudes que directamente se referem ao que se designa também por relações carnais ou sexuais, quer dizer, actos relativos à procriação.

Em si, o amor afectivo e o amor carnal não têm nada de nobre; o homem procura neles a sua própria satisfação; o que enobrece o amor é o carácter espiritual, pelo qual os que se amam aspiram a realizar juntos uma perfeição mais alta e pelo qual aquele que ama pretende o bem do amado. Mas o amor nutre-se, manifesta-se e expande-se no afectivo e no carnal. Um amor puramente espiritual, desligado da carne, é inumano ou sobre-humano. É inumano se se não apoia noutras realidades além das humanas. O homem, considerado em si mesmo e nas condições habituais da sua natureza, está feito para um amor de proporções humanas, e estas exigem que a afectividade e o próprio corpo, nos seus instintos mais profundos, estejam comprometidos no amor. Mas a nobreza e a pureza do amor afectivo e carnal dependem do amor espiritual que manifestam. Não é possível separá-los.

O amor afectivo acaba normalmente no amor carnal, quer dizer, no desejo da união simbolicamente total que o amor carnal realiza. Digo simbolicamente total, porque um amor que se limita à carne, como o da simples procura do prazer, nada tem de total; a união só pode ser propriamente humana e humanamente total se o homem se compromete nela inteiramente, tanto de corpo como de espírito. Porém, quando o amor carnal é o termo do amor espiritual e afectivo, ele passa a exprimir o dom total do ser com a supressão de toda a reserva.

O amor carnal é o símbolo da mais completa intimidade, de uma intimidade onde nada há que esconder ou recusar. Não sem razão se lhe dá a designação de posse. Quando se diz que, no amor carnal, os que se amam já nada têm a negar-se, não pode esta expressão, na verdade, ser tomada à letra, porque, mesmo neste extremo da posse, o homem continua submetido a uma regra de moderação e de domínio de si. No entanto, o amor carnal pressupõe uma intimidade sem igual. Esta exprime-se, também simbolicamente, pela intimidade de alcova e de tálamo, isto é, do mais íntimo da vida. Partilhar facilmente esta intimidade física, sem intimidade de alma, com seres aos quais não nos liga qualquer intimidade profunda, é um índice de vulgaridade. É o que sucede com os amores fáceis, e por isso figuram estes entre as formas mais baixas de aviltamento.

É verdade, infelizmente, que esta forma de aviltamento é frequente, porque os que se elevam à plena dignidade do ser humano são pouco numerosos. E muito pouco se fala disso pelas razões anteriormente apontadas. Tantos há que não ouviram falar do amor senão através de gracejos e de histórias indecentes!… É preciso aprender a amar. E como se poderá aprender a amar, se nunca se fala do amor ou se unicamente se fala dele de uma maneira mesquinha?

(Jacques Leclercq)