Carta de um filho único

Mãe e pai, não sei muito bem por que comecei a escrever isto. E também não sei por que o faço em forma de carta, como se fosse mesmo possível estar a dizer-vos estas coisas, como se fosse possível que as escutásseis.

Deve ser porque há alturas na vida em que fazemos um balanço, ou em que sentimos necessidade de descobrir sentidos, de pensar em causas e consequências. E há pensamentos que só ganham a sua dimensão dentro de nós quando os dizemos a alguém, ainda que seja assim como o estou a fazer.

É claro que a mãe e o pai são as pessoas a quem mais devo, por quem tenho maior gratidão. Como poderia ser de outra forma? É claro que o que vou dizer não é uma crítica, até porque não sei se seria capaz de fazer melhor se estivesse no vosso lugar. O que fizestes por mim tem muitíssimo mais valor – está noutro plano – do que aquilo que não fizestes ou poderíeis ter feito melhor. Esta carta é assim como pensar em voz alta, e sei que não me levaríeis a mal se pudésseis ler estas palavras.

Procurastes, desde que era criança, tornar-me a vida fácil. O vosso amor levou-vos a afastar de mim os obstáculos e os esforços. Mas também a possibilidade de adquirir experiência. Também a possibilidade de me tornar uma pessoa corajosa.

Foi muito mais tarde que aprendi a perder, que soube que a vida não podia ser exactamente como desejava, que compreendi que devia adaptar-me, ceder, crescer dentro de mim para alcançar objectivos. Como custou então! Tive de aprender tudo isto não nas coisas pequenas da infância, mas nas grandes; não naquilo que teria remédio fácil, mas no que não tinha remédio; não dentro das paredes acolhedoras do lar, mas na grande casa, cheia de vento, da vida. E ainda não aprendi totalmente. Ainda sou muitas vezes a figura da desilusão. Há muitos dias em que viver me enraivece.

Destes-me tantas coisas! Ainda agora me vêm por vezes à recordação roupas bonitas que vesti, brinquedos que me deliciaram, guloseimas… Por que não me destes o vosso tempo? Como eu seria agora feliz se tivéssemos vivido na rua, numa barraca, à chuva talvez, mas abraçados, cantando, apoiando-nos uns nos outros! Pai, se tu soubesses quantas coisas te quis contar e não pude…

Para que queria eu uma televisão no quarto? E jogos electrónicos? Não passaram de parênteses na minha vida: tempo que perdi, tempo que me foi roubado, tempo em que estive só.

Eu agora sei bem que os melhores brinquedos são os irmãos. Brinquedos vivos, que dão e recebem, que nos fazem crescer e crescem também pelas nossas mãos. Que se transformam depois em grandes amigos para toda a vida, em companhia sempre presente de uma maneira ou de outra, em refúgio e estímulo. Em algo que fica quando se perde tudo aquilo a que nos conduziu a nossa loucura, quando se perde o que o tempo nos vai levando.

E se soubésseis como me tem custado relacionar-me com outras pessoas: colegas, companheiros, amigos… Se eu tivesse tido irmãos, teria aprendido desde muito cedo a limar essas arestas normais da convivência. Saberia desde muito cedo o que é um rapaz, uma rapariga, uma mulher, um homem. Há coisas tão difíceis, que nenhum livro ensina! Por que não me destes irmãos?

Há dias li num jornal uma senhora dizer que só tinha um filho porque ter outro era muito caro. Não acredito em que, no nosso caso, tenha sido por uma razão como esta! Lembro-me muito bem de me terdes ensinado que devemos ser generosos. Mãe, tu fizeste contas? Fizeste contas, pai? Como quando compraste o automóvel? Eu também não teria existido se naquela altura tivésseis uns euros a menos no banco? É possível que eu seja resultado das vossas contas e não do vosso amor? É claro que não acredito. Sempre me ensinastes que o amor resolve todos os problemas.

Hoje fico por aqui. Em breve vos escreverei de novo.

(Paulo Geraldo)