Casais sem filhos

Antes de falar das uniões infelizes em que o amor é espiritualmente estéril, é preciso dizer algumas palavras acerca dos casamentos materialmente estéreis. Não são casamentos falhados. Estes esposos podem ter um grande e belo amor. Mas falta à sua união um factor de desenvolvimento que são os filhos e, logo que passaram os primeiros anos, quando se tornou evidente que a sua união não dará os frutos naturais e eles não encontrarão nos filhos o acabamento do amor e a superação sem a qual o homem se não realiza, – correm então o risco de cerrar-se sobre si mesmos e de se perderem num egoísmo a dois.

Devem, nessa altura, suprir o que falta à sua união, dirigindo para outras actividades o desejo de fecundidade, indispensável para o homem atingir o seu pleno desenvolvimento.

E, logo em primeiro lugar, visto que têm um lar e esse lar não se enche, pela falta do desenvolvimento natural da sua união, devem abri-lo amplamente a todos os que podem encontrar nele uma consolação ou um benefício.

Assim, muitas vezes, nas famílias em que vários irmãos ou irmãs constituíram lares, um dos casais que não teve filhos faz da sua casa um lar comum, que se torna o centro familiar. O lar que a natureza não povoou anima-se com a presença de sobrinhos e sobrinhas. O tio e a tia são os confidentes de todos, grandes e pequenos, os árbitros nas dificuldades, os medianeiros. Porém, este papel que lhes dá uma acção e uma felicidade diversas das dos pais, e também muito grata, exige, uma vez mais, abnegação, porque, para se ser de certo modo o centro único, é preciso, dispor-se a ficar sempre em segundo plano. Cada um dos lares que estãoà sua volta pratica por sua conta o egoísmo familiar: os pais são para os filhos antes de o serem para o irmão ou para a irmã; os filhos são seus filhosantes de serem do tio ou da tia. E eles praticam este egoísmo familiar sem mesmo o saber. Vêm a casa do tio e da tia sempre que têm necessidade deles, sempre que esperam um favor, sempre que têm um desgosto; mas o tio e a tia – seja qual for a confiança que se lhes consagre e o prazer que se experimente junto deles – não deixam, no entanto, de ser apenas tio e tia.

Papel semelhante ao casal sem filhos desempenha-o, por vezes, um tio – ou, melhor ainda, uma tia solteira. As “tias solteironas” sempre tiveram um papel nas famílias, por vezes um papel sacrificado, mas, sempre que têm personalidade e sabem organizar uma vida independente, um papel apreciável e precioso. Infelizes, pode dizer-se, daqueles que não tiveram uma tia solteira – disposta a consolar, a mimar, a receber confidências, a tia que substitui a mãe e a auxilia, que conhece todas as intimidades da família e está sempre pronta a ajudar! Ela pode chegar a ter uma vida cheia de beleza, entre sobrinhos e sobrinhas que vão crescendo, desde que não pense excessivamente em si própria, desde que saiba colocar-se num segundo plano e se resigne sem amargura de que a esqueçam um pouco nas horas felizes! Não há só a “arte de ser avô”; ser tio ou tia é igualmente uma arte! Exige dedicação e exige que, em dias de solidão, tenha com que encher a sua vida por si mesmo.

O casal sem filhos deve ainda, na maioria dos casos, criar centros de interesse fora do lar. Já que a união não atingiu, pela falta de filhos, o seu pleno desenvolvimento, os esposos devem, em certa medida, orientar-se para um ideal individual, a fim de se consagrarem a formas de actividade extra-conjugais. Porque é regra universal que o homem só se realiza mediante uma doação de si mesmo em que se supera e, não tendo filhos a quem dar-se, esses esposos devem encontrar noutro lado algo a que se dêem.

Os esposos sem filhos podem ter um grande papel em todas as formas de actividade desinteressadas, caritativas, artísticas, sociais das quais os pais carregados de filhos não têm tempo para se ocupar. Isto é ainda mais importante para as mulheres, porque os homens, em qualquer das hipóteses, têm uma actividade profissional, enquanto a mulher se consagra normalmente ao lar. Este, porém, não absorve inteiramente a mulher sem filhos e ela pode aproveitar os seus ócios para fazer alguma coisa útil. Tem um lugar a ocupar na sociedade e – como mulher casada – goza de um crédito que uma mulher não casada dificilmente obtém.

De resto, mesmo essa actividade exterior pode ser concebida, de certo modo, em função do matrimónio.

Os esposos podem pôr-se de acordo para actuar; se formam um casal unido, acharão um no outro apoio e conselho. Em muitos casos, o lar poderá servir de lugar de encontro, de deliberação e, se cada um dos esposos está perfeitamente a par do que o outro faz, participará verdadeiramente da sua actividade. Ter uma casa que possa servir de centro é sempre uma tarefa difícil de realizar para um solteiro.

(Jacques Leclercq)