Casamentos infelizes

Tratamos aqui de uniões mais ou menos infelizes, na sua maior parte simplesmente imperfeitas, medíocres, em que os esposos são o que em geral se poderá chamar bons esposos, no sentido de que não têm censuras graves a fazer um ao outro e podem gozar de certa felicidade afectiva e material, sendo, no entanto, incapazes de subir mais alto.

Não tratamos agora de dificuldades de carácter, dessas que opõem momentaneamente os esposos. Estas dificuldades sempre as há, e esposos unidos por um grande ideal podem ter atritos que de modo algum excluem um profundo amor. O perfeito acordo entre dois seres humanos, especialmente entre um homem e uma mulher, em todos os pormenores da vida quotidiana, não pode produzir-se espontaneamente, e já vimos que cada um dos esposos deve aceitar que o seu cônjuge seja imperfeito. Deve aceitar esta imperfeição em desconto da sua. E deve também aceitar, por maioria de razão, o ter em consideração certas diferenças que não são propriamente imperfeições nem de um nem de outro. Um dos esposos pode gostar de se deitar tarde, e o outro de se deitar cedo; um pode ter mais necessidade de sono do que o outro… Cada um deve ter em consideração o outro, os seus gostos, o seu carácter, as suas necessidades. Poderá mesmo possuir-se um grande ideal e um mau carácter.

Mas não é disso que neste momento nos ocupamos.

Nem sempre os esposos que se casaram com o desejo de realizar um ideal no matrimónio encontram eco às suas aspirações no seu cônjuge. Pode este ser honesto e amar à sua maneira, mas sem encarar no matrimónio outro aspecto que uma existência terra a terra, uma vida comum, confortável e fácil. Este caso é muito frequente. E encontramos ainda casos mais dramáticos, quando o que aspirava a uma união muito pura se encontra unido a um cônjuge sem fé, que atraiçoa a fidelidade conjugal, dilapida os bens, abandona mais ou menos radicalmente o lar ou lança sobre ele a perturbação, por meio de violências contínuas.

À primeira vista, parece que os esposos infelizes se encontram com mais frequência entre as mulheres do que entre os homens. E, sem dúvida, as desordens violentas são mais frequentes entre os homens. Mas não faltam também mulheres insuportáveis que envenenam a vida ao marido, por vezes com um refinamento de que o homem é incapaz; e há maridos a quem custa entrar em casa, com receio das cenas de que já estão fartos. Nisto, como em tudo, quando se trata de união conjugal, a variedade dos casos práticos é quase infinita.

Na primeira hipótese, a do matrimónio medíocre, o esposo que aspirava a uma coisa diferente não encontra na união o instrumento da santificação mútua que deveria ser o matrimónio; encontra-se então na solidão espiritual em que estava antes de se casar, com a agravante de que havia julgado possível realizar uma obra magnífica na união, de que vira nesta uma alta vocação espiritual, e agora está desiludido quanto à esperança sobre a qual fundara a sua vida. Deve, pois, procurar de novo o seu caminho por si mesmo e, de algum modo, entregar-se a um ideal de solteiro.

Porque é próprio do matrimónio que seja uma associação para toda a vida. O ideal do matrimónio é, portanto, que toda a vida seja uma vida a dois. Mas, neste caso, a vida a dois fica reduzida a uma vida material. O contacto entre os esposos não passa de um contacto mais ou menos superficial; o laço que os une, um laço de felicidade e de rotina; permanece solitário o que há de mais profundo na alma, pelo menos naquele que tem em si alguma coisa de profundo, que tem uma vida interior e aspira a uma comunhão de aspirações. Falta uma união íntima; a vida íntima terá de prescindir da união conjugal e continuar solitária. Cava-se uma separação moral entre os esposos.

Quando um esposo se comprometeu no matrimónio com todo o ardor da sua alma, e choca com esta incompreensão, a decepção é muito forte e gera uma crise da qual alguns não mais se levantam. Julgam, por vezes, que se enganaram e que o ideal a que aspiravam é irrealizável; entregam-se à felicidade material que se lhes oferece e procuram abafar em si as aspirações superiores. Deveriam antes ver nisso uma chamada a uma outra vocação, porque Deus conduz-nos por caminhos que ultrapassam as nossas previsões; a sua vontade é-nos imposta pelas circunstâncias da vida e temos de discernir a sua chamada no caminho que se nos abre. […].

Além disso, isto se poderá verificar sem pecado de nenhum género, porque a solidão espiritual pode derivar simplesmente de que nos enganámos sobre a qualidade de alma da pessoa a quem unimos a vida, e pode ela ser honesta e de boa vontade, mas simplesmente medíocre. As almas não têm todas as mesmas exigências e muitas há que nada compreendem com uma certa tonalidade espiritual.

Há, no entanto, casos mais dolorosos em que o matrimónio vem a ser uma prova contínua e em que um dos esposos é para o outro um motivo de sofrimento. […] Muitas vezes é forte a tentação de procurar noutro lado a felicidade humana que o matrimónio não dá – ou de se abandonar à amargura, ou de se perderem todas as energias.

Há, no entanto, ainda nestas vidas conjugais não desenvolvidas, elementos conjugais que devem integrar-se na procura da perfeição.

Porque os esposos não deixam de ser esposos: o matrimónio é uma união indissolúvel, com boa ou má sorte, uma entrega definitiva; não há o direito de voltar atrás. Casar-se é assumir a responsabilidade de tornar feliz aquele a quem se desposa, e o dever subsiste apesar das faltas do cônjuge. E com maior motivo se pode afirmar o mesmo das uniões que não passam de medíocres.

Sem dúvida, há casos extremos em que a vida comum não é já possível – quando um dos esposos compromete a honra ou a saúde do seu cônjuge, ou faz perigar a vida moral dos filhos. Mas a par destas situações em que uma separação de corpos, se pode chegar a impor, quantas não há em que a vida comum continua a ser possível, e inclusivamente poderá levar a uma certa felicidade, que, conquanto não satisfaça o amor, vale mais do que as tristezas, as dificuldades e o escândalo da separação! Aceitando o irremediável – grave ou ligeiro – o esposo deve aceitar tal como é o cônjuge que ele próprio escolheu ou aceitou, procurar entender-se com ele e fazê-lo feliz. E isto pode levá-lo a problemas de consciência de todo o género.

Necessitará porventura de ter em conta as diversões preferidas do seu cônjuge, os seus gostos de luxo, de toilette; poderá ver-se obrigado a manter amizades que não comparticipam de nenhuma das suas aspirações. Por vezes, um dos esposos introduz o outro numa vida de prazer que se lhe torna pesada: alguns esposos há que desejam ver a mulher arranjada de uma maneira que lisonjeie a sua sensualidade e a sua vaidade e que repugna à jovem esposa. Algumas vezes mesmo, torna-se difícil avaliar os limites que separam as concessões inofensivas da cooperação no pecado, tanto mais que, a par do pecado propriamente dito, é preciso ter em conta o clima de vida que embota as almas, abafando a vida espiritual nos prazeres materiais. O mesmo chega a suceder na prática da união carnal em que um dos esposos – a maior parte das vezes o marido – pode ter desejos desordenados e em que é muitas vezes difícil dizer onde termina a aceitação passiva e onde começa a colaboração activa. Manter a pureza da vida interior, preservar as suas aspirações, purificar o seu amor, vivendo para os seus sem se buscar a si mesmo, é tanto mais difícil quanto mais arrastado se é, para agradar ao cônjuge, a prazeres inferiores em que se corre o risco de atolar-se.

Infelizmente, pode suceder que um cônjuge seja corrompido pelo seu cônjuge ou, sem chegar a este extremo, que um dos esposos, perca ao contacto do outro, as aspirações espirituais com que se havia comprometido à união.

A vida conjugal, com ser uma unificação de duas vidas, levanta sempre problemas difíceis desde que os esposos não estejam no mesmo nível moral. Por vezes, aquele que não encontra na vida conjugal os elementos de felicidade com que contava, encontra uma compensação nos filhos e consegue criar para si de algum modo uma felicidade incompleta por meio do amor que lhes consagra e da correspondência que recebe. Por vezes também, os sacrifícios que faz pela união conjugal têm mais tarde a sua compensação: sendo o matrimónio uma união para toda a vida, deve ser considerado em toda a sua duração e acontece que alguns lares com vida conjugal difícil nos primeiros anos podem conseguir mais tarde um equilíbrio mais ou menos estável. O homem ou a mulher de cinquenta ou de sessenta anos, são frequentemente muito diferentes do que eram aos trinta; e se aquele a quem o cônjuge tornou a vida difícil conseguir nada deixar transparecer, pode ver-se recompensado por um amor que se desenvolva tardiamente, quando se ultrapassou já a idade de certas paixões, O homem, em todas as idades se converte e em todas as idades se corrompe, e o que vela pelo seu cônjuge e lhe testemunha sem descanso um amor vigilante, recebe com frequência a sua recompensa com o decorrer do tempo.

Seja como for, o que é necessário não esquecer sobre estas vidas conjugais não desenvolvidas, é que a perfeição dos esposos se reveste nelas de um carácter individual que já não é a perfeição propriamente conjugal. Muitos esposos há que se apercebem disso sem que seja necessário explicar-lho, mas a plena consciência das condições de vida é sempre uma ajuda. E é bom reflectir nas dificuldades inerentes aos matrimónios deficientes quanto mais não seja para se pôr em guarda contra as uniões impensadas. Se o matrimónio feliz entre esposos que se dão é fonte de uma grande felicidade e, porventura, o lar de uma alta perfeição, o matrimónio infeliz levanta inúmeras dificuldades e muitas vidas falham porque os cônjuges não encontraram naquele ou naquela que desposaram o ser que os completava. Sem dúvida, o esposo infeliz pode tirar da sua infelicidade a oportunidade de uma purificação. Há infelicidades conjugais como há sofrimentos, doenças, revezes de fortuna. Mas os casamentos não têm essa finalidade; a união conjugal é uma coisa tão grave, tão integral, e abarca de tal modo a vida toda, que se não pode abordá-la sem reflexão e sem precauções.

Aquele que tiver falhado no casamento, deve contudo, aceitar a vida tal como se lhe apresenta, do mesmo modo que o que foi atingido por uma doença, ou como aquele que, tendo-se casado, perde prematuramente o cônjuge. Encontra então a sua perfeição numa vida interior individual que deve prosseguir solitário e o leva, apesar de tudo, a proporcionar ao cônjuge toda a felicidade que é capaz de lhe dar. Há esposos infelizes, como há viúvos e viúvas, que chegam por este modo a uma alta purificação espiritual. Todo o sofrimento é indício de uma vocação; mas as vocações que se não escolheram são as mais difíceis. Para começar, é normalmente difícil discerni-las, e depois, compreendê-las e aceitá-las. Mas isto é outro assunto…

(Jacques Leclercq)