Dar e receber

O que ama quer a felicidade do outro. Por isso se preocupa com o outro e não com o seu próprio bem estar. O outro transforma-se no objecto dos pensamentos, sentimentos e desejos, da sua esperança e dos seus anseios. Não só vive com ele mas também para ele. Quer que o outro possa apoiar-se em si, fazer-lhe um bem. O Papa João Paulo II disse que quem ama de verdade deseja dar tudo aquilo que não se pode comprar nem vender, pois isso é o que vale mais. Aquele que ama dá algo de si mesmo, da sua própria vida, do que está vivo em si próprio.

Partilha as suas alegrias e as suas tristezas, as suas ilusões e desilusões, as suas experiências e planos para o futuro, os seus conhecimentos, os seus interesses, as suas reflexões e o seu humor, numa palavra: dá-se a si mesmo. Partilhando a sua vida com o outro, enriquece-se. Aumenta a sensação de estar vivo e torna-se mais forte. Quando alguém dá de verdade, não tardará em receber. Pois a entrega de um fomenta a generosidade do outro, satisfazendo ambos.

Na verdade, dar significa receber, não só nas relações matrimoniais, mas também em muitas outras situações. O professor aprende com os seus alunos, o desportista sente-se animado pêlos espectadores, alguns psicoterapeutas são curados pelos seus próprios pacientes. Tudo isto é óptimo enquanto não se cai na grande tentação de se procurar a si mesmo nessa entrega. Pois até nos actos mais desinteressados pode faltar o amor; até a bondade se pode converter em injustiça para com a outra pessoa, e uma entrega ostensiva pode chegar a ser ofensiva. Basta pensar nas donas de casa que se matam a fazer limpezas, e depois o lançam à cara do marido.

O desprendimento é elemento essencial do amor. Só quando se sabe abstrair de si mesmo, e não se procura constantemente o elogio e o apreço por parte dos outros é que se é capaz de partilhar a vida de outra pessoa. Isto pressupõe um certo nível de amadurecimento e de independência, já que é necessário ter-se aceitado a si próprio antes de poder fazê-lo com outra pessoa. Para poder aprofundar os pensamentos dos outros é preciso dispor, antes, de reflexões próprias. Tanto o homem como a mulher têm de se tornar capazes de discorrer e fazer planos por sua conta própria. Esta independência é condição prévia para a capacidade autêntica de amor. Se eu depender de alguém por incapacidade de ser independente, essa pessoa pode ser meu salvador, o meu ponto de apoio, o meu orgulho e o meu lar; mas a nossa relação jamais se poderá chamar amor! Enquanto não tiver as minhas próprias convicções, e os meus próprios actos forem só reacções aos actos alheios e os seus ecos, não poderei ser um verdadeiro amigo de ninguém.

O amor só é possível na base da liberdade. Quem é livre, não se opõe a entregar-se nem o incomoda sentir-se insignificante. Não inveja no outro o que ele próprio talvez não tenha, e frequentemente, alegra-se se o outro for mais importante do que ele.

(Jutta Burggraf, in O desafio do amor humano)