Diversidade

Para cada homem e mulher que se amam reveste-se o amor de uma forma particular.

Esta variedade infinita é ainda uma das suas belezas. O matrimónio une um homem e uma mulher da maneira mais íntima. A unidade do lar depende fundamentalmente do que é este homem e do que é esta mulher.

As leis e as instituições pouco adiantam para o caso. Bem pode o código dizer que a mulher deve obediência ao marido; se o marido tem um carácter apagado e a mulher um carácter decidido, o marido obedecerá à mulher; e ainda que o código diga que a mulher deve seguir o marido, acontecerá que o marido segue a mulher.

O matrimónio, integram-no duas pessoas que põem em comum as suas vidas, comunicando-lhe o seu carácter, os seus dons, as suas fraquezas; e o matrimónio será o que forem os esposos.

Há amores serenos e amores tumultuosos, amores tranquilos e amores explosivos. Há amores muito profundos que, vistos de fora, parecem não exceder as proporções de um sólido afecto ou de uma cordial camaradagem; e outros há que, aparentemente vibrantes, não chegam a ultrapassar os limites de uma paixão puramente afectiva e pouco profunda.

A idade exerce também a sua influência. O amor não é o mesmo aos quarenta anos e aos vinte. Os que se casam tarde não encaram o matrimónio da mesma maneira que os que se casam cedo. E nem sempre por ter sido mais reflectido, por ter sido mais difícil de se resolver numa união perfeita, é o amor menos profundo. Mesmo quanto aos esposos, o amor transforma-se na medida em que passa o tempo; torna-se mais forte e mais profundo quando os esposos souberem construir a sua vida; e adquire com a idade uma serenidade e uma segurança que o ardor da juventude de modo algum pode imaginar.

É muito difícil chegar a aperceber-se desta diversidade de amores, porque é assunto de que pouco se fala, e a maioria dos esposos não deixa transparecer a sua intimidade, ou, se o faz, é apenas aos mais chegados […].

Essa é a razão de que muitas vezes suceda que algumas pessoas, não possuindo embora a experiência pessoal do casamento, não porque não tenham conseguido casar-se, mas porque renunciaram à felicidade do casamento por um outro ideal incompatível com ele – sabem mais acerca dele que muitos esposos, pelo simples facto de terem recebido muitas das suas confidências. […].

O amor manifesta-se das mais diversas maneiras. Encontram-se lares em que os esposos não podem passar um sem o outro, em que uma separação de vinte e quatro horas tem aspectos de tragédia, em que o regresso, após uma breve ausência, dá lugar a cenas de enternecimento e constitui um acontecimento. Noutros, os esposos separam-se de bom grado de vez em quando e consideram salutar uma certa independência, porque a ausência renova o amor e, mantendo cada um a sua personalidade, adquire esta um enriquecimento de que ambos aproveitam.

Encontram-se lares em que tudo se faz em comum, os esposos falam entre si de todos os assuntos e deliberam a propósito de tudo. Noutros, cada um tem as suas atribuições e os esposos julgam ocioso conversar sobre os detalhes da vida material. Em compensação, lêem juntos bons livros ou ouvem música. Conheci uma família muito unida em que a mulher tinha a seu cuidado a secção da caridade. Quando alguém solicitava a atenção do marido para uma obra, este respondia: “Dirija-se à minha mulher; é da sua jurisdição”. Para os primeiros, a união perfeita pressupõe a participação em comum de todos os infinitesimais da vida quotidiana; para os segundos, pelo contrário, é preciso ser suficientemente livre em relação aos pormenores para poder estar unidos, num plano mais elevado. É uma questão de carácter, cuja solução é diferente de lar para lar.

Não iremos mais longe na análise destas diferenças mais curiosas do que úteis. Basta ao nosso propósito que o leitor tome consciência de que dificilmente se pode aquilatar da união de um lar por simples sinais exteriores e de que podem os esposos estar profundamente unidos não obstante uma grande sobriedade de manifestações de ternura, ao passo que outros não podem conceber o amor senão a beijocar-se toda a vida. Convém que nos alarguemos, pelo contrário, sobre uma ou outra dificuldade da vida conjugal que todos os esposos encontram e devem superar.

(Jacques Leclercq)