Encontrar a pessoa certa para casar

Nem sempre o matrimónio atinge o pleno desenvolvimento que atrás descrevemos. O obstáculo mais frequente são os esposos. A impureza dos esposos e a sua mediocridade torna inacessível a felicidade conjugal. A sua união dá muitas vezes em resultado uma caricatura feita mais de rotinas e de resignação que de amor. Mas este livro não foi escrito para eles.

Pelo contrário, acontece também com frequência que esposos que aspiram a um alto ideal não podem realizar todas as suas esperanças. Uns, porque não encontram nos filhos o desenvolvimento normal e natural do seu amor. Outros – e são esses os casos mais dolorosos – porque se enganaram e não encontram no cônjuge a correspondência que esperavam.

Esses casos são os mais dolorosos; infelizmente, são frequentes. É, além disso, desolador ver como é excepcional que os jovens de elite façam um casamento acertado. Mas, quando se observa como os casamentos se fazem, admiramo-nos de que as uniões mal sucedidas não sejam em número ainda maior, porque a preparação para o casamento faz-se geralmente sob o signo do absurdo ou do acaso. Arrisca-se a felicidade como numa jogada de dados.

Os jovens comprometem-se quase sem se conhecerem, por um impulso sentimental em que o corpo desempenha por vezes maior papel que o espírito, sem garantias de ambiente, de educação, de convicções, ou mesmo de carácter, naquele ou naquela a quem se promete toda a vida.

Muitos casamentos há que se contraem depois de encontros na rua ou em reuniões de diversão, com uma ignorância quase total sobre a família, a vida quotidiana e a vida íntima daquele ou daquela a quem se unem para toda a vida. Há por vezes noivos que, na véspera do seu casamento, nada sabem, ou quase nada, das convicções religiosas ou da concepção familiar daquele ou daquela que vão desposar. Numa época em que a tantos repugna ter filhos, há jovens animados de fortes convicções cristãs que se casam sem saber se o seu noivo ou noiva desejam ter filhos, e muitos lares vêem a sua vida íntima envenenada a partir do dia em que, depois de terem tido um ou dois filhos, um dos esposos se recusa a ter mais. Com muita frequência, o entusiasmo sentimental do noivado leva a fechar os olhos sobre estes pontos delicados; o noivo não se atreve a falar deles à noiva para não a perturbar; a noiva não ousa falar disso porque não sabe como abordar o assunto. E refugiam-se na ilusão de que tudo se arranjará, posto que se amam e confiam cegamente um no outro. Mas por vezes, bastam alguns meses ou umas semanas para provocar um trágico despertar… e já se encontram ligados para toda a vida a alguém que não compartilha de modo algum as suas aspirações,

É suficiente, aliás, uma simples oposição de caracteres para abrir uma brecha na vida em comum. Por vezes, entre pessoas que julgam amar-se apaixonadamente enquanto só se encontram por breves momentos, o amor cai como folha morta logo que realizam o seu sonho, porque, na vida em comum, defrontam-se os caracteres e verificam acto contínuo que o seu amor era apenas passional ou carnal, sem uma união profunda de aspirações ou de maneiras de ser.

Quando duas pessoas se unem nestas condições, o desentendimento ameaça eclodir desde os primeiros dias. Por isso, nunca será demais dar toda a importância à necessidade que os futuros esposos tem de se conhecerem tal como são.

Os costumes actuais, nos nossos países, permitindo aos jovens maior liberdade que outrora, favorecem os casamentos de amor. Certos descontentes do nosso tempo sublinham o perigo de casamentos levianamente combinados e exaltam os benefícios da autoridade paterna. Mas as uniões preparadas pelos pais não oferecem menos inconvenientes, como já vimos; apresentam-nos mesmo em maior grau, porque os pais são levados frequentemente a desprezar a conformidade de caracteres e a atracção pessoal, para reparar somente em condições exteriores, alheias à união íntima dos esposos. O exemplo das sociedades aristocráticas, em que os casamentos “de conveniência” são a regra, demonstram que o resultado é pior que nos casamentos de amor, e que o adultério é neles, por vexes, tão habitual que acaba por se tornar quase uma instituição.

O casamento por amor é o casamento normal, e o amor é a primeira condição de um casamento são. Mas isso não impede que tenha necessidade de garantias.

É por isso que têm muita importância as condições em que os rapazes e as raparigas se encontram. Abandonar estes encontros ao acaso é criar um perigo, e a incúria de muitas famílias neste ponto está na base de mais de uma desgraça.

De um modo geral, é de desejar que os rapazes e raparigas se encontrem sem dificuldade em condições que lhes permitam conhecer-se e poder-se apreciar, e para isso é necessário que estes encontros se realizem em condições que não tenham por fim preparar casamentos.

As reuniões de sociedade organizadas com o propósito de facilitar encontros são precisamente o que há de mais oposto a estas exigências, porque criam uma atmosfera artificial, estranha à vida real, e não permitem avaliar do carácter dos que aí se encontram. No entanto, em muitos meios, estas reuniões são consideradas o meio por excelência para preparar uniões.

O meio ideal em que os jovens se deveriam encontrar é a própria família. As famílias deveriam manter-se amplamente abertas e é até de desejar que, durante a infância, os rapazes conheçam as filhas de famílias amigas, e as raparigas os rapazes, de modo que uns e outros cresçam com camaradas do outro sexo, de famílias semelhantes às suas, e a família se conserve depois acolhedora para os camaradas e amigos dos filhos. Os casamentos entre amigos de infância, os casamentos de rapazes com as irmãs dos seus amigos ou as amigas das suas irmãs, os casamentos das raparigas com os irmãos das suas amigas ou os amigos dos seus irmãos são, regra geral, bons casamentos, porque estes jovens tiveram encontros e aprenderam a apreciar-se na intimidade da vida familiar, onde o carácter se manifesta ao natural.

Pode dizer-se, de maneira geral, que as condições sãs para a preparação do casamento se poderão descobrir em encontros que não têm por fim preparar casamentos, onde, por conseguinte, os jovens não pensam fazer-se valer de um modo artificial, onde levam os fatos de todos os dias – que vestirão depois, quando casados -, empregando a linguagem da vida quotidiana e falando de coisas da vida quotidiana. É por isso que as uniões entre universitários que se conheceram durante os estudos costumam ser felizes, porque esses se conheceram em condições que não tinham como objectivo preparar casamentos. E o mesmo se pode dizer de casamentos entre empregados da mesma repartição, etc…

Os pais deveriam ter, portanto, a preocupação de proporcionar aos filhos um ambiente infantil onde eles encontrassem também crianças do outro sexo, e continuar depois essa política quando os filhos crescessem, de modo a que no dia em que o rapaz ou a rapariga se ligassem a alguém, essa ligação se produzisse em condições sãs.

Além disso, necessita-se para o casamento de uma preparação remota, que consiste para o rapaz em ter prática do carácter feminino, e para a rapariga em tomar consciência do que é um homem. Também isso pressupõe contactos diários. Há filhos únicos que se mostram incapazes de fazer feliz o marido ou a mulher por não terem ideias exactas do que poderá ser o carácter de uma pessoa do outro sexo.

Apesar de tudo, sejam quais forem as precauções havidas e a preparação para o casamento, sempre haverá uniões infelizes. O homem sempre se pode enganar e, além disso, muda. Este, que apresentava verdadeiras qualidades na altura do casamento, perde-as em seguida, enquanto que outros, pelo contrário, se corrigem.

(Jacques Leclercq)