Estudos em crianças oriúndas de famílias monoparentais e biparentais

As características familiares são relevantes na análise de toda uma série de comportamentos por parte das crianças e dos jovens. Estudos de grande amplitude levados a cabo após o ajustamento de variáveis como o sexo, a educação do progenitor, a residência e os rendimentos revelam que as diferenças na estrutura familiar comportam riscos diferenciais entre crianças oriundas de famílias biparentais e crianças oriundas de famílias monoparentais.

– Ao atingirem a idade adulta, as crianças que cresceram em famílias monoparentais têm uma probabilidade três vezes maior do que as crianças oriundas de famílias intactas de vir a ter filhos fora do casamento, para além de uma probabilidade 2,5 vezes superior, nas raparigas, de virem a ser mães adolescentes (53);

– As probabilidades de uma jovem vir a ser mãe adolescente são de 37% para jovens oriundas de famílias monoparentais matriarcais nas quais a mãe seja solteira, 33% para jovens oriundas de famílias divorciadas, 21% para órfãs de pai; e 11% para as jovens oriundas de famílias intactas (54);

– A ausência de pai expõe a criança a um elevado risco de vir a ter um desenvolvimento social desequilibrado, o que pode afectar, num primeiro momento, os seus resultados escolares e, em última análise, as suas hipóteses de mobilidade socia1 (55). De igual forma, a proveniência de uma família monoparental traduz um risco acrescido para a criança também ao nível da saúde (56);

– Um estudo do National Center for Health Statistics concluiu que os jovens oriundos de famílias monoparentais e famílias adoptivas (stepfamilies) têm uma probabilidade duas a três vezes maior do que as crianças de famílias biparentais intactas de virem a sofrer de distúrbios emocionais ou comportamentais (57).

– Um estudo da Universidade Estadual de Kent, no Ohio, sobre o impacto do divórcio nas crianças comparou os desempenhos de crianças de famílias biparentais e crianças de famílias monoparentais resultantes de divórcio. As conclusões emanadas de índices que envolviam hostilidade relativamente a adultos, pesadelos, ansiedade, participação em gangs, desempenhos na matemática, na escrita e na leitura, notas escolares, saúde física e mental traduziram um panorama claramente desfavorável para as crianças oriundas de famílias monoparentais (58);

– De acordo com os mais recentes estudos longitudinais sobre os efeitos do divórcio na esperança de vida média das crianças, a relativa aos filhos de pais divorciados é, em média, consideravelmente inferior (76 anos) à esperança de vida média das crianças oriundas de famílias intactas (80 anos) (59).

Muitos são os sintomas sociais relativos ao comportamento dos jovens que despertam preocupações na sociedade no seu todo. Os índices gerais são assustadores: suicídio entre adolescentes (que conheceu um crescimento de 134% entre 1962 e 1998) (60); consumo de drogas ilícitas (em 1999, 54,7% dos jovens que frequentavam o 12.º ano já tinha experimentado drogas ilícitas, sendo a percentagem para os jovens que frequentavam o 8.º ano de 28,3%) (61); incremento acentuado de diversas patologias psicológicas infantis (distúrbios alimentares, depressões, ansiedade, etc.).

(Família e Políticas Públicas, João Carlos espada, Eugénia Nobre Gambôa, José Tomaz Castello Branco, Editora Principia)

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(53) Sara McLanahan e Gary Sandefur, Growing up with a Single Parent, 1994, in David Popenoe, Life Without Father, p. 56.

(54) Ibid., p. 152.

(55) Estudo desenvolvido na Universidade do Texas por Ronald Angel e Jacqueline Angel, Painful Inheritance: Health and the New Generations of Fatherless Families, 1993, p. 119.

(56) National Center for Health Statistics, National Health Interview Survey of Child Health – 1988, in David Popenoe, Life Without Father, 1996.

(57) Nicholas Hill e Charlotte Shoenborn, Developmental, Learning, and Emotional Problems: Health of Our Nation’s Children, United States, 1988, advanced data, National Center for Health Statistics, n.º 120, 1990, p. 9, citado por David Popenoe, Life Without Father, p. 57.

(58) John Guidubaldi, Joseph D. Perry e Bonnie K. Nastasi, ,Growing up in a Divorced Family: Initial and Long Term Perspectives on Children Adjustment.., Applied Social Psychology Annual7, 202-237, 1987, p. 231 citado por David Popenoe, Life Without Father, p. 57.

(59) www.trinity.edu/-mkearl/family.html.

(60) o suicidio é a terceira causa de morte entre os jovens dos 10 aos 20 anos. U. S. Department of Health and Human Services, Centers for Disease Control and Prevention, .Assessing Health Risk Behaviours Among Young People: Youth Risk Behaviour Surveillance System., 1998, in William Bennett, Tbe Index of Leading Cultural Indicators, 2000, p. 130-131.

(61) Dados do National Institute on Drug Abuse, .Monitoring the Future Study., 1998 in William Bennett, Tbe Index of Leading Cultural lndicators, 2000, p. 135. No que concerne ao consumo de drogas ilícitas, o panorama em 2000 era o seguinte: 12% dos alunos do 8.º ano, 23% dos alunos do 10.º ano e 25% dos alunos do 12.º ano afirmaram ter consumido drogas nos últimos 30 dias. Entre 1992 e 1996, a taxa de utilização de drogas aumentou de 11% para 23% entre os jovens que frequentavam o 10.º ano e de 7% para 15% entre os jovens que frequentavam o 8.º ano. Para os jovens que frequentavam o 12.º ano, a taxa de utilização cresceu, no período de 1992 a 1997, de 14% para 26%, respectivamente. Dados do Federal Interagency Forum on Child and Family Statistics, America’s Children: Key National Indicators of Well-Being, 2001, p. iv.