Euforia amorosa

Os noivos têm a ideia de que um amor muito profundo os une, capaz de resistir a todas as provas, porque o amor do noivado é estimulado pelo desejo ainda não realizado e porque apenas se vêem nesse momento os encantos da vida conjugal, apresentando-se as dificuldades ainda longínquas. Quando os noivos têm uma alma generosa, facilmente incluem nos seus projectos o de realizar uma vida perfeita sob o ponto de vista moral, e estas perspectivas só vêm aumentar a atracção do matrimónio. Pelo facto de os esponsais realizarem os seus desejos e de os encaminharem sem dificuldades para o que julgam ser a sua felicidade, todas as suas tendências idealistas se libertam. De momento, não exigem estas nenhum sacrifício. O tempo do noivado é, por conseguinte, em muitos casos, um período de expansão espiritual.

A euforia amorosa algumas vezes é menor quando os noivos chocam com dificuldades, quer porque são contrariados no seu amor, quer porque o noivado dura demasiado tempo. Os noivos de vários anos, que preferentemente se encontram nos países do Norte, criam uma espécie de hábito pré-matrimonial que acalma o sentimento. Salvas porém, todas as excepções, pode dizer-se que na ordem habitual das coisas, o tempo de noivado é um tempo de felicidade amorosa fácil e de vivo amor.

A seguir, os primeiros meses de casamento são também, normalmente, um tempo de felicidade perfeita e de amor em pleno auge.

Um grande número de factores concorre para isso. O rapaz novo e a rapariga nova estão numa idade em que a vida em casa dos pais se torna mais ou menos pesada. Porque, em casa dos seus pais, não deixam nunca de ser os filhos; o centro da família não são eles; a vida familiar encontra-se organizada primordialmente em função dos pais e segundo os gostos dos pais. A disposição dos quartos, os móveis, as refeições, todo o teor da vida quotidiana está regulado pelos pais, como melhor lhes parece, e os filhos têm de se submeter… No entanto, os filhos chegaram a uma idade em que o ser humano experimenta o desejo de ser senhor de si mesmo e de regular o seu próprio destino. E eis que, uma vez casados, bruscamente, poderão ter uma casa própria, que ordenam a seu bel-prazer, onde tudo se fará de acordo com os seus gostos, onde apenas têm de consultar as suas preferências. E como o amor entre eles está no auge, cada um deles encontrará a sua felicidade em que o outro seja feliz.

Os móveis estão dispostos na sua casa como eles querem que estejam; as refeições são às horas que lhes parecem oportunas e a cozinha é ao seu gosto. A isto vem juntar-se a plena liberdade do amor afectivo e carnal que é causa igualmente de uma paixão e de uma satisfação profunda, o abandono à paixão amorosa sem turbação de consciência, sem precauções. Nada vem coarctar esta liberdade. Sob todos os pontos de vista estes começos do matrimónio são uma espécie de paraíso terreal, em que parece poder-se dar rédea solta aos próprios desejos, e em que o amor só traz consigo felicidade.

Uma vez mais, isto não sucede sempre de um modo tão absoluto, mas, por pouca saúde que os esposos tenham, sempre que possuam um mínimo de recursos e um carácter suportável, as satisfações da vida conjugal excedem de tal modo as dificuldades, que estas são relegadas para um segundo plano. E se o noivado teve de superar obstáculos, se os jovens noivos tiveram de esperar muito tempo para se casarem, a explosão e a doçura da felicidade conjugal tornam-se por vezes mais vivas. O estado dos recém-casados é, na ordem habitual das coisas, o estado de felicidade humana perfeita.

(Jacques Leclercq)