Impaciência

O problema reside, em certa medida, na impaciência.

Reconhecemos, tal como já sucedia com os nossos antepassados, que estamos feitos para a felicidade, mas queremo-la no imediato. Não estamos dispostos a esperar por um além, do qual, aliás, nos acostumámos a duvidar. Paraísos… só se forem já e aqui.

Os antigos desconfiavam do imediato. Parecia-lhes pouco e pequeno. Encontravam dentro de si ânsias e desejos que nenhuma coisa daqui seria capaz de satisfazer. Parecia-lhes natural que um bem tão grande como aquele que pressentiam se fizesse esperar. Que custasse – em sacrifício – um preço muito elevado. Que se encontrasse, em plenitude, somente no final do caminho. Que estivesse tantas vezes escondido – como os tesouros.

Mas nós habituámo-nos a carregar em botões que fazem funcionar mecanismos que realizam – imediatamente e sem esforço da nossa parte – tarefas árduas e demoradas. Não cabe na nossa cabeça que não exista uma forma moderna, rápida e fácil de encontrar a felicidade.

Lançámo-nos, portanto, a procurá-la no que está perto, no que é fácil, no imediato.

Mas sucede – e todos vamos verificando isso – que não somos felizes. Que errámos o método. Que não existe modernidade neste campo.

Aquilo que está à nossa volta pode, sem dúvida, servir de caminho, fornecer pistas, funcionar como uma janela para o ponto de chegada. Mas não é o ponto de chegada.

Conseguimos apenas recolher prazer, satisfazer gostos e caprichos, saborear alguma comodidade – o que é muito, muito pouco. O nosso coração tem outras medidas. Por isso, continuamos a chorar por dentro, a sentir o desencanto e até a amargura.

Quem poderá descrever aquilo que existe dentro de nós?

Mas, para não termos de reconhecer o fracasso, chamámos a isso felicidade. Andamos emproados com as nossas roupas de marca, os nossos telemóveis de último modelo, a nossa conta bancária, o nosso “poder de compra”, a nossa ração diária de conforto…

Os resultados de confundirmos prazer com felicidade foram devastadores: animalizámos a sexualidade, desistimos da família, usámos as outras pessoas como nunca se tinha feito no planeta, tornámo-nos a nós mesmos semelhantes às coisas a que tínhamos entregado o coração.

E transmitimos tudo isso aos nossos filhos, pelo menos com o nosso exemplo ou com os nossos silêncios indesculpáveis. Ao mesmo tempo que – como andávamos muito ocupados com os nossos prazeres rasteiros – os deixávamos abandonados num mundo que não é fácil de entender.

Teriam precisado de nós muito mais do que aquilo que de nós lhes demos. Em tempo, em sinceridade, em exemplos de virtudes, em verdadeira amizade. Teriam precisado, antes de mais, de que lhes déssemos irmãos, muitos irmãos – que são os grandes educadores e os grandes amigos para a vida.

Muitos deles também procuram agora a felicidade no prazer. Bebem, drogam-se, curtem. Frequentam casas nocturnas. Divertem-se em risos tontos e vazios. Tornaram-se bonecos nas mãos dos mercadores. Estudam como loucos para virem a ser ricos. Enfeitam-se extravagantemente por fora, porque ninguém lhes disse que se deviam enfeitar principalmente por dentro.

Tenho como certo que trazemos sobre os ombros o peso do sofrimento de uma geração. Se não nos emendarmos, a nossa saída de cena – não falta muito – será um alívio para o mundo.

Ficarão por cá as vítimas da nossa impaciência. Hão-de crescer amparados apenas uns aos outros; hão-de errar muito e sofrer aquilo que não seria necessário sofrer. Mas encontrarão o encontrar o caminho e serão homens.

Paulo Geraldo