Moderação e delicadeza

Finalmente, o terceiro aspecto da castidade conjugal refere-se à moderação e à delicadeza, inclusive no uso normal do prazer.

Em matéria de prazer sexual, a regra é a mesma que em todos os prazeres carnais. É preciso saber “ficar com algum apetite”, não ir até ao fim da paixão, não se saciar, não se lançar no prazer como uma besta… Infelizmente, não há paixão em que a moderação seja mais rara.

Diversas razões concorrem para isso. No que se refere ao beber e ao comer, somos educados na moderação desde a primeira infância. No domínio da castidade, a formação da juventude é uma formação para a abstenção total. Os esposos e, de modo particular, o marido, devem educar-se a si próprios, e como em geral não trocam impressões com ninguém sobre estes assuntos, nem são objecto de qualquer controlo, permanecendo a intimidade conjugal confinada a marido e mulher, se antes do casamento não puseram nunca o problema e, pelo contrário, se viveram na ideia de que os seus esforços meritórios de pureza iriam encontrar o seu termo no matrimónio – como libertação do instinto – é muito para recear que não pensem de modo algum em adquirir formação.

Já anteriormente observámos que os esposos, depois do casamento, devem aprender a amar. Têm também de aprender a dominar os seus sentidos, de acordo com a nova modalidade de castidade conjugal, e nesse sentido devem ser advertidos desde os começos da sua união.

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O comer e o beber, por exemplo, são actos mais ou menos públicos; a intimidade conjugal, pelo contrário, é ciosa. É sabido o lugar que ocupa nos actos do homem o receio de “o que se poderá dizer”.

Dificuldades de todo o género se podem opor aos excessos da mesa; quanto mais não seja, o preço dos banquetes e dos vinhos. Mas os excessos sexuais entre os esposos não acarretam nenhuma despesa. É o prazer gratuito por excelência. Apenas a preocupação moral os pode deter, e a influência do factor moral em estado puro é, por via de regra, fraca, quando não está reforçada por outros factores menos nobres.

Finalmente, o apetite sexual é, de certo modo, um apetite de luxo, no sentido de que não é necessário satisfazê-lo para viver, nem sequer para gozar de boa saúde. Apenas é necessário para a espécie. Por outro lado, o excesso também não produz consequências imediatas. Ainda que muitas vezes traga consigo uma forma de depressão, de que mais adiante falaremos, não faz contudo adoecer, como o excesso de bebida ou de alimentação.

A paixão sexual torna-se com facilidade de uma extrema violência e isso se deve a que o prazer sexual é o mais rico de todos, já pela razão de derivar da união com um ser humano, já porque o homem se encontra nele comprometido inteiramente, de uma maneira muito mais profunda do que noutros prazeres do corpo. Tudo isso explica que a moderação do amor carnal seja mais difícil de observar, e mais rara do que a moderação em qualquer outro prazer.

Assim se explica um facto que muitas vezes parece misterioso.

Rapazes que, antes do casamento, testemunhavam sentimentos cristãos profundos, dedicando-se a obras de apostolado e manifestando uma piedade fervorosa, parecem, em muitos casos, perder de repente a sua generosidade e o seu idealismo no dia seguinte ao das núpcias. Mostram-se subitamente enfastiados, declaram que a generosidade da sua vida não era mais do que um sonho vão e professam um realismo que redunda, afinal, em puro materialismo. Só há verdadeira felicidade, dizem eles, numa vida tranquila, em que cada um se ocupa de si mesmo e dos prazeres do lar. Os que anteriormente foram testemunhas da sua generosidade, desiludidos com esta reviravolta, não a conseguem explicar.

Por um lado, é de facto legítimo que os recém-casados se isolem algum tempo do mundo para construir a sua felicidade. Mas, quando este isolamento se reveste dessa forma de fastio que acabámos de ver e opõe um cepticismo desolador ao que meses antes os entusiasmava, a causa disso deve, na maioria dos casos, ser procurada no abandono ao prazer de que se fala. Se eles se deixam invadir pelo prazer, e toleram que a preocupação do prazer absorva o seu espírito, materializam-se a si mesmos, e dominados pela sensualidade, tornam-se incapazes de se elevar aos valores espirituais.

Este caso é infelizmente muito vulgar. O matrimónio converte-se então num egoísmo e numa sensualidade a dois. Não obstante, os jovens esposos têm a aparência exterior de uma vida regrada, simples, honesta. Não podem passar um sem o outro e constituem o que se chama um lar perfeito. No entanto, a sensualidade satisfeita, proporcionando-lhes um profundo bem-estar carnal e orientando o seu espírito para as satisfações do corpo, produz uma perda de energias, a par de uma repugnância por tudo o que se eleva sobre o carnal. E é por vezes muito difícil chegar a sair desse lamaçal. E há os que nunca mais se levantam.

Por isso é tão importante que os esposos se disponham a dominar a sua paixão desde os primeiros dias da sua união. O hábito de deixar-se ir adquire-se com uma inquietadora rapidez, e bastam por vezes alguns meses para não ser possível levantar-se. Muitas catástrofes conjugais têm nisso a sua causa.

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Os mais diversos motivos militam, aliás, em favor desta moderação. O esposo deve, para começar, usar de delicadeza ao iniciar a sua jovem mulher nos mistérios da carne, respeitando o seu pudor. Por vezes, será de aconselhar que proceda por etapas e deve, para isso, ser senhor de si mesmo.

Depois, os esposos devem saber que, no decorrer da sua vida conjugal poderão ver-se obrigados a observar a continência completa durante períodos que podem ser longos. Como serão capazes de o fazer se não adquiriram desde o começo o hábito de se dominar? E, sobretudo, o domínio da carne é, neste como em todos os casos, e neste mais do que noutros, a condição indispensável do desenvolvimento espiritual.

No entanto, não deverá isso conduzir ao excesso oposto, que apenas vê na união carnal uma lastimável abdicação do espírito. Um prazer que sela, manifesta e alimenta a conformidade, a união e a intimidade dos esposos, um prazer de que apenas o cônjuge é instrumento e participe, é um prazer são e, nas condições habituais da natureza humana, não é normal que um homem e uma mulher, sobretudo sendo novos, vivam juntos, amando-se, sem que nasça neles o desejo de levar a sua união até à completa intimidade da posse. […]

Mas se é bom e normalmente são que os esposos levem a intimidade conjugal até às suas últimas consequências, é, pelo contrário, grosseiro, neste domínio como nos demais, excluir uma regra de moderação e de controle de si mesmo.

Para aplicar estes princípios aos casos individuais, é preciso, por outro lado, ter em conta as diferenças consideráveis que a paixão apresenta. Cada um é levado a imaginar a humanidade de acordo com a sua experiência pessoal. E essa é a razão de que as apreciações acerca das dificuldades de castidade sejam extremamente variáveis, tanto no casamento como fora dele.

A diferença entre os homens no que se refere aos apetites físicos, é sempre considerável. O apetite de comer e de beber varia, conforme os indivíduos, na proporção de um para três ou quatro, e o que é gulodice para um pode ser sobriedade para outro. Porém, há razões para pensar que esta diferença deva ser ainda maior quando se trata do apetite sexual, posto que este nem sequer é necessário para o bem do indivíduo, recebendo apenas a sua exigência da necessidade de continuar a espécie. Ora, para isso, é suficiente um certo número de homens e basta que pratiquem o amor carnal de vez em quando durante alguns anos. Não é, pois, para admirar encontrar as mais profundas variações, não só em relação às pessoas, mas também à idade. Sempre que se fala deste problema, a atenção dirige-se normalmente para o caso dos que têm um apetite violento, para quem, por conseguinte, a regra da moderação apresenta dificuldades. Mas, se bem que este caso não seja para desprezar, convém, no entanto, não se deixar fascinar por casos difíceis. Também em matéria de fecundidade, fala-se geralmente do assunto como se todos os casais, salvo precauções draconianas, estivessem certos de ter um filho todos os anos até a mulher ter passado de idade. De facto, por variadíssimas razões, físicas e sociais, um grande número de famílias são materialmente incapazes de uma tal fecundidade e não faltam os que, preocupados já antes do casamento com o receio de um excessivo número de filhos, não chegam a ter nenhum, ou só os têm depois de muito tempo e com longos intervalos. A vida sexual está, além disso, em relação com o conjunto da vida. Particularmente nos meios intelectuais, é bastante frequente que os homens que levam uma vida simples e activa, trabalhando muito e distraindo-se pouco, cheguem à noite fatigados e, ocupado o seu espírito com outros assuntos, seja moderado o seu apetite sexual. Quando os homens que trabalham muito querem desfrutar de uma vida de prazer, excitando para isso as paixões, não é raro que esta vida os gaste e que envelheçam cedo ou morram novos.

Aliás, é muito mais elevado do que habitualmente se crê o número dos que têm necessidades sexuais limitadas, não experimentando o desejo do acto carnal senão de tempos a tempos e que, uma vez atingida a maturidade, podem prescindir dele sem grande esforço, sempre que se não excitem por meios artificiais. Como essas pessoas se preocupam pouco com o problema, por lhes não interessar, e, pelo contrário, aqueles para quem a castidade põe problemas, estão sempre a falar dela, ficamos com a impressão de que os segundos são toda a humanidade; mas é falsa perspectiva.

(Jacques Leclercq)