Necessidade de uma conversão

No amor, de um modo particular, o ponto de partida está na procura de felicidade. Já anteriormente dissemos que só se pode desposar alguém se se julga encontrar a felicidade nessa união.

Porém, a beleza da vida conjugal, do amor conjugal, está em que constitui um chamamento a elevar-se sobre esse egocentrismo, a consagrar-se ao cônjuge em primeiro lugar, e ambos, depois, à obra do lar, que transcende os esposos. Torna-se indispensável uma conversão. O amor que antecede o matrimónio, necessariamente impregnado da preocupação de si mesmo, deve transformar-se num amor pelo qual se passa a viver exclusivamente para a família. Entre os novos, aqueles que adquiriram o hábito de abnegação estão mais ou menos preparados para isso; mas há um abismo de diferença entre a dedicação ocasional a companheiros ou a protegidos, que apenas ocupam um lugar acessório na vida, e a entrega total de si mesmo, a completa fusão de dois seres na unidade das vidas juntas. Trata-se, no matrimónio, de um amor de tal maneira profundo que cada um dos esposos nada possua já que não seja do outro, que toda a vida seja comum, que as suas duas almas se unam em todas as preocupações, inclusive na maneira de conhecer a vida, desde as concepções fundamentais até aos detalhes mais íntimos – do lenço e do café com leite.

Pode dizer-se, sem receio de exceder-se, que ninguém está realmente preparado para uma tal união. Se os esposos são jovens, os seus caracteres são maleáveis, mas sentem-se ainda com todo o fogo do desejo, próprio da juventude, de se afirmarem, de terem a sua vida pessoal e, para usar o termo próprio, com todo o fogo do egoísmo próprio da juventude, essa forma de egoísmo que é de certo modo, uma condição necessária ao ser humano que tem de orientar a sua vida.

Se são mais velhos, e conhecem já as vantagens de uma vida independente, quando o marido, por exemplo, exerce há alguns anos a sua profissão, têm também hábitos criados, o seu carácter é menos flexível e as suas faculdades de adaptação mais reduzidas. Nos casos, aliás bastante frequentes, de pessoas que casam depois dos trinta anos, há uma verdadeira dificuldade quanto à perfeita harmonia da vida dos dois esposos: o marido é muitas vezes levado a crer que, casando-se, se limita a introduzir uma rapariga na sua vida e que só a ela caberá o trabalho de adaptação.

De qualquer maneira, os esposos devem saber que, por mais vibrante e doce que tenha sido o amor do noivado, é no dia seguinte ao do noivado que começa a verdadeira escola do amor – que só então pode começar, porque só na união conjugal atinge o amor toda a sua força e toda a sua pureza. É por isso que o amor conjugal encerra uma perfeição peculiar, que se não encontra fora do matrimónio, a qual não conhecerão nunca aqueles que não se casaram. Porém, esta santidade tem como condição aprender a amar […]. A primeira e, em certo sentido a grande obra do matrimónio, aquela que condiciona o êxito de tudo o mais, é a de cultivar o amor, que pode e deve crescer até ao fim da vida, intensificar-se continuamente, enriquecer-se de ano para ano com a progressiva purificação dos corações, com todas as recordações comuns, as alegrias comuns, os desgostos comuns os trabalhos comuns – mais com os desgostos do que com as alegrias. Casar-se é enveredar por uma estrada com horizontes de luz; é uma caminhada a dois, de mãos dadas, apoiando-se mutuamente, para horizontes que não cessam de ampliar-se, de se iluminar e de se purificar, e, quando os esposos foram capazes de realizar a sua vocação, não é aos vinte anos que o seu amor é mais belo; nem sequer no dia de núpcias, – é mais belo no entardecer da vida, quando se enriquecem com tudo o que a existência lhe proporciona e com tudo o que eles puderem cultivar em si próprios de capacidade de amar.

(Jacques Leclercq)