O conhecimento do outro

“Amo-te por seres como és” significa: “conheço-te, reconheço a essência inconfundível do teu ser, e aceito-te tal como és”. O amor conjugal como todo o amor, tem que ser, em primeiro lugar, amor pelo conhecimento. Só posso amar a quem conheço, e se o amo desejo aprofundar cada vez mais o seu conhecimento. Por outro lado, eu também desejo que aquele que é amado por mim me conheça cada vez melhor. É por isso que aqueles que se amam procuram a conversa e a presença da pessoa amada de uma maneira cada vez mais intensa. O que a Bíblia diz de “conhecimento” ao referir-se à união sexual tem um sentido profundo.

Conhecemos o outro – e não o conhecemos, pois cada pessoa é um mistério inexplicável, insondável. Quanto mais nos metermos nas profundezas da nossa própria personalidade ou na de outra pessoa, mais obscuro se torna para nós aquilo que desejamos captar. Apesar disto, o amor conserva vivo o desejo de penetrar no mais íntimo do outro. E só ele nos pode revelar, sequer um pouco, como é realmente a outra pessoa.

O amor verdadeiro faz ver, não cega. Se amo alguém, apercebo-me, por exemplo, se se aborrece, apesar de tentar disfarçá-lo. Verei ainda e compreenderei que o outro tem medo ou se sente culpado. O seu aborrecimento é só uma expressão do seu descontentamento. Vejo, então, a sua perturbação e sofrimento e não o seu aborrecimento.

Nos primeiros tempos de um casamento, o verdadeiro conhecimento do outro e a antecipação do seu futuro desenvolvimento só é possível de uma maneira muito deficiente. Para isso é necessária uma convivência de anos. O conhecimento adquirido com o tempo pode ser doloroso, mas também libertador: talvez o outro não corresponda às primeiras impressões, ao ideal sonhado; vejo cada vez mais claramente as suas limitação e fraquezas, as faltas e as imperfeições. Mas quanto mais me afastar do meu ideal sonhado, mais profundamente perceberei que o outro é único. (Cada pessoa é uma pessoa; os produtos da fantasia, pelo contrário, são extremamente estereotipados. Um exemplo patente são os romances cor-de-rosa).

Posso aperceber-me de que o outro é diferente de todos os que existiram antes e existirão depois. Com o tempo, chegarei a conhecer também as suas possibilidades mais recônditas. Conheço-o, não só pelo que é, mas também pelo que pode e deve ser, como poderia ser a sua perfeição e a sua autêntica auto-realização. Vou vivendo cada vez melhor, como Deus o quer ver realizado desde a eternidade e para a eternidade. Por isso, o céu é, em certo sentido, uma parte de todo o amor autêntico. O céu dever-se-á compreender aqui como aquele lugar onde tudo atingiu a sua perfeição. Quanto mais amo uma pessoa, mais profundamente consigo penetrar no seu ser e aperceber-me da sua máxima perfeição. Por isso, o amor, poderíamos dizer em certo sentido, é uma antecipação do Céu.

Naturalmente, o conhecimento da outra pessoa não deve afastar-nos da realidade, pelo contrário, agarrarmo-nos mais fortemente a ela. Quanto mais conhecer o outro por aquilo que é e pelo que deve ser, mais deve crescer o meu amor por ele.

Se assim não for, este conhecimento esfumar-se-á e ficará somente a desilusão e a resignação produzida pela recordação de uma ilusão. Pelo contrário, quanto mais crescer o meu amor, mais desejarei que o outro seja o melhor e o mais perfeito possível, em suma, que se realize o máximo; e assim estarei preparado para o ajudar a alcançá-lo. Vejo com uma clareza cada vez maior como a minha auto-realização pessoal consiste em ajudar o outro a realizar-se.

(Jutta Burggraf, in O desafio do amor humano)