O primeiro amor

O primeiro amor de uma rapariga é o seu pai.
É ele o primeiro homem que se encanta com ela. É ele quem primeiro a trata como a uma princesa, quem lhe faz todas as vontades e lhe adivinha todos os desejos.
O pai é o primeiro homem que ela observa, quando ainda nem sabe que está a observar. O primeiro a quem dá a mão e a quem fala de segredos e de sonhos. O primeiro a quem deseja agradar.
Espera que ele chegue a casa, corre para ele, quer sair com ele.
Tem no coração o terrível receio de que alguma coisa má aconteça ao pai.
E quando o pai conversa com a mãe, ou quando discutem ou trocam carinhos, ela observa. Vê como eles resolvem as coisas juntos, como enfrentam as dificuldades que vida lhes oferece, como têm paciência entre eles.
Nota que o pai faz uma palhaçada quando vê a mãe triste ou cansada. Que muitas vezes vai até à cozinha e tenta fazer o melhor que pode. Vê como ele, assobiando alegremente, de esfregona na mão, consegue que as limpezas das manhãs de sábado acabem por ser um divertimento para a família inteira.
Os defeitos e limitações do pai comovem-na. Quando o vê meio humilhado, quebrado por algum fracasso, desiludido, atrapalhado, quer protegê-lo, estar a seu lado, abraçá-lo.
Quando, mais tarde, ela pensa em que um dia se há de casar, e começa a procurar aquele com quem virá a partilhar a vida e a construir uma família, não há nenhum problema: ela sabe muito bem o que quer.
Por trás de todo o cortejo de rapazes que vem a conhecer na escola ou na universidade, está, como que num pano de fundo, a imagem do pai. E ela procura, mesmo sem o saber, alguém que encaixe naquela imagem. Não pela cor dos olhos ou pelos traços do rosto, mas por qualquer coisa que talvez ela não saiba explicar, embora seja clara como água.
Nessa fase, a rapariga encontra-se perante a escolha decisiva da sua vida, porque a família que vamos formar, tal como aquela onde nascemos, é uma coisa fundamental para nós. Porque o amor, por ser tão central no que diz respeito à felicidade, é aquilo em que não devemos de modo nenhum enganar-nos.
E afinal, o pai – que parece ter um papel tão limitado na família, que não está tão presente quanto gostaria, que comete tantos erros educativos – vem a ter, ainda que nunca tenha tido consciência disso, um papel principal na felicidade dela.

 

(Paulo Geraldo)