Os pais são para os filhos, mas os filhos não são para os pais

Os filhos são a glória e a alegria dos esposos. Mas a missão dos pais exige uma renúncia, porque o amor paterno – e a própria felicidade, que é a sua recompensa – só se realizam pelo dom de si próprio.

Nisto vamos encontrar a regra de todo o amor: mas a oposição entre o amor egoísta que recebe e o amor desinteressado que dá é mais acentuada ainda no amor paternal do que no amor conjugal, porque não há entre os pais e os filhos a mesma reciprocidade que há entre os esposos.

Os pais devem viver para os filhos, mas os filhos não devem viver para os pais. Devem aos pais afecto, reconhecimento, respeito, mas estes deveres não postulam que lhes consagrem as suas vidas, ao passo que os pais, durante todo o tempo em que os filhos necessitam deles, têm o dever de lhes consagrar a vida.

Porque a lei da natureza lança o género humano para a frente. Os pais são o passado; os filhos, o futuro. O papel dos pais é transmitir a vida e desaparecer depois de haverem confiado aos filhos todos os bens que possuem. A transmissão da fortuna não é mais do que o símbolo da transmissão dos bens do corpo, da alma e do coração, que os filhos recebem dos pais, primeiramente por nascimento e, depois, pela educação.

E é lei da natureza que, tendo os pais dado tudo aos seus filhos, lhes não entreguem estes o que receberam, mas por sua vez o transmitam aos seus filhos, e se dediquem a estes, como os seus pais se dedicaram a eles. Os pais são, pois, para os filhos. E os filhos não são para os pais. A natureza é impiedosa: nada há para os pais na missão paterna; é tudo para os filhos. Os pais encontram nela a sua recompensa, mas com a condição de a não procurarem e de nem sequer pensarem nisso. Todo o volver sobre si mesmos da sua parte diminui o afecto e o respeito que os filhos lhes dedicam e, por consequência, as verdadeiras satisfações que os filhos lhes poderão dar. As famílias em que os filhos fazem o impossível por agradar aos pais, por lhes satisfazer os desejos, por lhes testemunhar o seu afecto, são precisamente aquelas em que os filhos têm a consciência de que os pais viveram para eles e só neles pensaram.

Talvez em nenhum outro domínio se verifique com mais rigor a lei da vida moral que afirma não encontrar o homem a felicidade senão com a condição de a não procurar, e de que a preocupação da felicidade mata a felicidade. Porque o filho é um ser humano jovem, necessariamente orientado para o seu próprio desenvolvimento, e os pais têm a função de lhe assegurar esse desenvolvimento, criando as necessárias condições e conduzindo o filho pelo caminho que lhe convém. Digo bem: que lhe convém, não o que lhes convém.

E, logo, quando o filho, tendo tirado aos pais tudo o que podia tirar, chega à idade em que é senhor do seu destino, manda a lei da natureza que deixe os seus pais e vá realizar a sua missão de homem com a companheira que tiver escolhido.

A felicidade dos pais reside em serem as testemunhas da felicidade dos filhos, as testemunhas do seu êxito e em sentir orgulho desse êxito, porque os seus filhos são os seus filhos e a sua felicidade, os seus êxitos são, de algum modo, os dos seus pais.

Já vimos que os pais são ajudados a este desinteresse pelos próprios laços naturais que os unem aos seus filhos.

O amor dos pais é desinteressado por natureza, no sentido de que é natural nos pais considerar a felicidade e a infelicidade dos filhos, os seus sucessos e os seus fracassos, como próprios. Mas em muitos pais de alma mais ou menos vulgar, este desinteresse só se manifesta nas grandes ocasiões. Devotar-se-ão, por exemplo, ou farão grandes sacrifícios monetários para cuidar do filho doente mas, na vida corrente, só pensarão em si próprios e só procurarão no filho a sua satisfação pessoal.

Os pais também devem aprender a amar. Como os esposos. Mas os pais são esposos, esposos primeiramente, pais depois. Do mesmo modo que o amor conjugal se deve purificar, o amor dos pais deve tomar a forma inteiramente desinteressada que lhe convém.

(Jacques Leclercq)