Paternidade espiritual

A paternidade biológica é matizada e complementada pela paternidade espiritual. De certa maneira, todos estamos chamados a essa paternidade espiritual. É esta paternidade que completa a nossa personalidade, que nos torna maduros e satisfaz uma exigência da condição humana, tanto de quem a exerce (paternidade espiritual) como sobre quem se exerce (filiação espiritual). Em muitos casos, esta paternidade espiritual é tão ou mais forte do que a paternidade biológica.

Os pais biológicos também estão abertos à paternidade espiritual; é um dever que completa a paternidade biológica. A paternidade espiritual deveria respeitar também a pessoas solteiras, e muito concretamente a professores, médicos, educadores, sacerdotes e outros que cuidam de alguém. Sem isso, a personalidade não está completa.

Há muita coisa em jogo no desempenho dessa função, porque é uma exigência natural da nossa identidade. É através dessa paternidade espiritual que torna possível afirmar os valores e orientar os seus projectos, para crescerem, a fim de descobrir o que de melhor têm dentro de si próprios, mesmo que o ignorem.

É através dessa paternidade espiritual que se realiza a transferência, de uma geração para outra, de valores, tradições, projectos e ideais. Essa é a correia de transmissão da cultura tradicional de uma geração para a seguinte, para assim – sem que nada de valioso se perca – enriquecer o mundo e a sociedade inteira.

Embora a filiação seja mais importante do que a paternidade, no âmbito da família a paternidade depende da filiação, porque todos somos filhos. Se se é bom filho, é mais provável que se seja um bom pai, e vice-versa. Se não se é um bom pai, o mais provável é não seja um bom filho.

(Aquilino Polaino-Lorente, Catedrático de Psicopatologia, Universidade San Pablo-CEU, Madrid. Conferência em Setúbal)