Perigos da felicidade perfeita

Contudo, esconde os seus perigos. Porque a felicidade perfeita é perigosa para os homens e ameaça fazê-los curvar sobre si mesmos. O egoísmo, um egoísmo de dois, que por isso é mais perigoso, porque o dissimula o amor, espreita os jovens esposos; e o hábito da vida fácil, a procura do prazer, ameaça enfraquecer neles a capacidade de sacrifício.

Logo que têm um filho, a ordem das coisas começa a alterar-se; o filho exige cuidados e acorda os pais às três horas da manhã …

E se porventura não aprenderam a amar, o seu amor corre o risco de murchar rapidamente. Aprender a amar é aprender a dar-se. Aquele que se casa contrai a responsabilidade da felicidade de um outro. O marido deve fazer a mulher feliz. A mulher o seu marido. Os dois juntos têm de construir um lar que seja um centro de atracção e de irradiação: devem aprender a esquecer-se um pelo outro e ambos pelo lar.

Só o matrimónio pode permitir ao amor esta purificação, porque fora do matrimónio o amor conserva sempre uma ponta de inquietação. O matrimónio faz desaparecer o receio de perder o amado. Não tem já que pensar em si, pode pensar-se no outro. No amor extra-conjugal, o amante conserva quase inevitavelmente o receio de que o ser amado o abandone; e sempre o preocupa o cuidado de se defender contra esta hipótese.

Por outro lado, um novo perigo ronda o matrimónio. A segurança da união conjugal leva certos esposos a não alimentar o amor, a deixar-se levar, não pela afeição, mas pela vulgaridade, pela negligência de quem já não procura agradar porque nada tem a conquistar. A linguagem grosseira e os maus modos do marido, os penteadores enodoados e os cabelos mal arranjados da mulher têm muitas vezes uma influência perniciosa sobre o bom entendimento conjugal.

Tanto mais que, embora o matrimónio dê uma segurança desconhecida do amor livre, não põe, no entanto, ao abrigo das tentações. Se a tentação chega, é preciso que o amor que de fora se oferece choque com um grande amor, inteiramente vivo, por dentro. É preciso evitar que o amor adormeça. O amor que adormece é um amor em perigo de extinguir-se.

Mas, para tanto, desde o começo, o que ama tem de educar o amor.

(Jacques Leclercq)