Reflexões sobre as relações pré-matrimoniais

Parece frequente, quase habitual, os jovem manifestarem com alguma urgência o seu amor pelo(a) outro(a), chegando a relações sexuais enquanto a atracção de um pelo outro se manifesta.

Vou tentar argumentar esta realidade, a partir das experiências globais, que todos temos, e que podem dar lugar a posteriores conversas pessoais, práticas e profundas, mesmo privadas, porque há assuntos em que a argumentação intelectual não parece suficiente nem completa. No fundo, e sem rodeios, defenderia o bem de cada pessoa, sem subterfúgios, fruto de muitas coisas, entre as quais destacaria a amizade, o conhecimento e a experiência.

O poeta Virgílio diz na Eneida “Foram os deuses que puseram este ardor no nosso espírito? Ou, pelo contrário, cada um faz um deus do seu desejo…?”

Também cada um de nós pode gritar como Virgílio, ou pelo menos, já pudemos ter tido vontade de o fazer; porque a pessoa humana, com a sua inteligência, penetra as possibilidades da sexualidade, as fomes de afecto…; os animais não, pois carecem de imaginação erótica: nem criam nem recriam, nem autoconstroem os seus prazeres, os seus desejos e os seus amores…

Apaixonar-se é algo muito forte, e é difícil pôr-lhe limites. O amor conta com tantos ingredientes! Tem de tudo um pouco; sente-se alguma coisa, necessita-se de algo, tem de se expressar essa coisa….; a pessoa no seu todo, e também os gestos corporais, começam a actuar e a crescer. E vem esse murmúrio autêntico do “…sinto-me muito perto de ti, quero dizer tudo o que quero sentir; quero sentir tudo isso que quero dizer…; quero, já no presente, todo esse projecto de futuro que procurava e que encontro contigo; os meus gestos corporais pedem autenticidade, quero abandonar-me em ti, e perder a consciência, e deixar-me levar, e sentir e amar…”

Tudo isso é verdade, e é muito belo, ainda que, felizmente, seja apenas a ponta do iceberg de tudo o que é o amor humano; o gesto corporal amoroso pede intimidade, e a intimidade pede a eloquência do corpo…; a intimidade corporal é a manifestação do amor, mas se reduzirmos a isso o amor, se centrarmos os comportamentos humanos no “progresso” de mecanismos sexuais, se não está no marco idóneo, quebra-se aquilo que é genuíno da conjugalidade: a relação das almas, a concórdia dos caracteres, e tantas outras formas de ternura e de compromisso; também face à dor e ao sofrimento.

Se se coloca a sexualidade como o único e o primeiro aspecto nas relações amorosas homem-mulher, a experiência dita que nos incapacitamos para o que efectivamente procurámos. Quantos casamentos desfeitos e desiludidos…!

Penso que, em parte, se reduziu a biografia humana à pura biologia, equiparou-se a qualidade biológica à qualidade humana; o amor humano pressentido ficou opaco; perde-se, por falta de protecção, a capacidade de ver de forma contemplativa, racional, poética, natural…

As relações sexuais do homem com a mulher estão feitas e chamadas para a exclusividade: aí a sexualidade manifesta toda a sua beleza e o seu sentido original; com um amor recíproco, para sempre, que é o que protege essas relações e as fortifica; a reciprocidade é uma intuição muito profunda, é uma parte da vocação interior do ser humano varão face ao ser humano mulher, o destino à comunhão, “a estar com…”; a sexualidade humana é doação e abertura à vida… Precisamente por isso há duas coisas integradas nestas relações sexuais: o filho e as normas.

Na relação conjugal, no amor que um e uma dão um ao outro, manifesta-se o filho. Filho e amor. Coincidem o mais profundo acto unitivo corporal do amor com o facto de conceber: intimidade e doação; doação e fruto. Assim o expressa o poeta Miguel Hernández, não precisamente um conservador: “: “He poblado tu vientre de amor y sementera/ he prolongado el eco de la sangre a que respondo/ y espero sobre el surco como el arado espera:/ he llegado hasta el fondo./

“Povoei o teu ventre de amor e sementeira/ prolonguei o eco do sangue a que respondo/ e espero sobre o rego como o arado espera:/ cheguei até o fundo!”.

Por outro lado, todos comprovamos que aquilo que é valioso merece uma protecção. Assim o vivíamos tradicionalmente: desde a caixinha para guardar uma jóia, à pasta de um computador portátil, passando pelas finíssimas membranas que recobrem os nossos órgãos vitais.

Afirmo que só a partir da beleza da sexualidade é possível pensar numa educação sobre ela; para isso está o casamento, também como uma espécie de marco de protecção, de lugar idóneo de amor.

Há já algum tempo, numa viagem a Amberes, a terra de Rubens, aprendi que este genial e profícuo maestro, com toda a sua fugacidade, nas suas numerosas obras, permitia aos seus discípulos que pintassem os corpos humanos, mas não delegava nos seus discípulos que pintassem os olhos; estes reservava-os para si…; porque de alguma forma, no olhar encontra-se algo de genuíno da pessoa, é a sua inteligência, e o seu coração e…é olhar mais para dentro.

A vida matrimonial é doação cumprida, não prometida; o sentido da parte recebe-se do todo. Submeter-se às regras naturais, canónicas, civis, religiosas …não é pensar que da sua observação se deduzirá se a sexualidade é má ou boa. Não! Temos regras porque há uma bondade que pede à liberdade humana que saiba venerar e respeitar essa sexualidade.

Em suma, teremos que seguir o que disse Cervantes: (” que es de vidrio la mujer/ pero no se ha de probar si se puede o no quebrar/ porque todo podría ser/ y no es cordura ponerse/ a peligro de quebrarse/ lo que después de romperse/ ya no puede soldarse/” ) “a mulher é de vidro/ mas não se deve experimentar se ela se pode ou não partir / porque tudo poderia acontecer/ e não é sensato pôr-se / em perigo de quebrar-se / aquilo que depois de se partir / já não se pode soldar/”. Se o pacto matrimonial fica debilitado ou obscurecido por falta de domínio, pela não coerência na identidade relacional, fica, no fim, apenas a saudade… Que pena!

A vida humana, as relações com os outros, o amor que podemos dar e receber é muito mais que o que a aparência nos mostra, que o que a fria técnica possibilita, ou o que uma opinião pública generalizada e desprovida de alguns valores nos oferece.

O amor entre homem e mulher tem o seu significado na construção da família, através do casamento. A família é uma das sociedades que correspondem mais imediatamente à natureza do homem; nela se facilita a consideração dos outros como “outro eu”; cuida-se da sua vida e dos meios necessários para a viver com dignidade e quase sempre feliz; ali cada membro brilha com luz própria, é o rosto de alguém amado; Com Dante digo e lembro-me “Un amor che nella mente mi raggiona”.

Por Gloria María Tomás y Garrido

(Tradução, para a Aldeia, de Adelina Moura)