Trazer um homem ao mundo é uma glória

Porque nada neste mundo é maior do que o ser humano, e ter dado ao mundo um homem é motivo de orgulho sem limites. Não há outra obra em que o homem seja mais criador; também não há obra que seja mais sua. A não ser em casos excepcionais e infelizes, o filho é o orgulho e a alegria dos pais.

Verifica-se isto nos que não têm filhos: “não se encontra finalidade na vida”, dizem eles. E é verdade porque, para o homem, não há finalidade senão num objecto que lhe sobreviva. Se o filho constitui para os pais uma razão de viver e de trabalhar é, antes de mais, porque é o seu filho, porque nele se continuam e porque nenhuma obra do homem, nem sequer a obra de arte, perpetua a tal grau o seu próprio autor. E o que é uma obra de arte, por mais perfeita que seja, comparada com um ser humano?

Porque é nisso que é preciso insistir: o ser humano é a obra-prima da criação. Trazer um homem ao mundo é uma glória; e se a maioria dos homens vê isso com uma certa indiferença sempre que se não trate do seu próprio caso – o facto em si é por demais habitual para que nos extasiemos sempre que nasce uma criança – caso por caso, no entanto, a mesma surpresa se levanta quando o jovem pai e a jovem mãe vêem, pela primeira vez, vir ao mundo o fruto das suas obras. Dir-vos-ão muitas vezes que jamais teriam acreditado que ter um filho pudesse causar uma tal impressão, que um ser tão pequeno pudesse ocupar um lugar tão importante na sua vida, que fosse possível prender-se a ele a tal ponto, e a embriaguês da paternidade e da maternidade é um desses prodígios ingénuos que se renovam todos os dias e se renovarão sem cessar enquanto houver homens.

Ê sabido até que ponto as mães se mostram naturalmente orgulhosas dos seus filhos, e que basta elogiá-los diante delas para que o seu rosto resplandeça de alegria. Os pais, como convém à natureza masculina, são habitualmente mais objectivos e reservados; porém, que zelosos são de poder orgulhar-se dos seus filhos, que humilhados ficam quando os filhos não fazem por honrá-los e como se manifestam quando um filho ou uma filha alcançam êxitos! E ninguém tem a impressão de que esses sentimentos sejam banais ou antiquados porque, mais ainda do que o cônjuge, o filho é para os seus pais um ser único; e os pais para os filhos. Não há crianças que sejam “suas” como os seus filhos, que reproduzam a sua personalidade com essa fidelidade, que estejam ligados a si dessa maneira, que tenham nascido de si mesmos. Por isso, os filhos são necessariamente para os pais seres como não há outros, se bem que o não manifestem, a não ser com reserva. Por outro lado, não é verdade que não há outros como eles e que apenas eu, com os meus irmãos e irmãs, sou o filho dos meus pais, parecendo-me com eles, dependendo deles de tal maneira que, se este homem – meu pai -, e esta mulher – minha mãe – se não se tivessem unido, eu – este ser que sou eu, que é o único a ser eu, este ser único do mundo, irredutível a qualquer outro, este ser – eu, não existiria?

E o filho só tem um pai e uma mãe. Só há um homem no mundo e uma mulher, com os quais tem essa relação de dependência e de solidariedade, um homem e uma mulher que têm na sua vida um lugar irredutível. Para cada um de nós, os actos do seu pai ou da sua mãe não são de modo algum como os de qualquer outro; para cada um de nós, o nosso pai não é de modo algum um homem como qualquer outro, nem a nossa mãe, uma mulher como outra qualquer.

Por isso é que se pode dizer que cada família é um novo começo do género humano. Para cada casal, o seu filho é o primeiro que vem ao mundo, porque muito embora tenha visto outras crianças, as tenha visto nascer e tenha visto nascer muitas, jamais havia experimentado a impressão de que as coisas fossem assim; e, para cada um de nós, os nossos pais são os primeiros do mundo, os únicos, porque antes deles não conhecemos outros que fossem os nossos pais…

(Jacques Leclercq)